A arte do aconselhamento psicológico – Rollo May – Resenha crítica

Rollo May, psicólogo americano existencialista,  autor de Amor e Vontade, apresenta em A arte do aconselhamento psicológico  sua experiência como terapeuta e conselheiro.

Em princípios fundamentais, a primeira parte do livro, May (1982) apresenta a personalidade como não determinada, embora apresente alguns detalhes significantes de origem familiar, ressaltando o constante desenvolvimento. A personalidade, caracterizada pela liberdade, individualidade, integração social e tensão religiosa e concretiza o indivíduo livre, socialmente integrado e consciente do espírito.

Desta forma, conduzir o processo de aconselhamento como uma construção criativa em que os conflitos destrutivos são transformados em construtivos. Desenvolver a consciência da responsabilidade do indivíduo pelo seu destino e os resultados da sua vida. Estes são os fundamentos do processo terapêutico. Esta construção criativa no processo terapêutico ocorre pela transformação dos conflitos destrutivos em conflitos construtivos.

Os problemas da personalidade têm origem na falta de ajuste nas tensões internas como egocentrismo, ambição e é necessário fazer ajuste nas tensões existentes pois a personalidade é viva, mutante, plástica. Cabe ao aconselhador buscar tornar saudáveis atitudes e padrões de comportamento do aconselhando.

O ajuste realizado no processo terapêutico das tensões da personalidade compreendem crescimento, desenvolvimento e realização de potencialidades. A vida é criativa, fecunda, variável, dinâmica e os ajustes fazem parte da evolução da personalidade. Saúde mental e ordem social saudável andam juntas.

Por fim, a fundamentação traz a empatia, o sentir ou pensar de uma personalidade dentro da outra até a plena identificação, o perfeito entendimento entre aconselhador e aconselhando. Então, a empatia, chave do processo de aconselhamento, habilita o uso da linguagem de outra pessoa, na busca para se compreender o aconselhando sob o seu próprio padrão, único e singular. É o entregar-se e, como  uma tábua rasa, entregar-se à empatia.

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Na segunda parte, May (1982), os passos práticos apresentam a leitura do caráter caracterizada pela sensibilidade do aconselhador ao aconselhando quanto aos medos, esperanças e tensões da personalidade. As singulares expressões – tom de voz, postura, expressão facial, traje e movimentos aparentemente acidentais do corpo, esquecimentos e deslizes –  fazem parte do quadro da personalidade do indivíduo. Esta leitura deve ser cautelosa e agregar diversos outros fatores, pois é o momento do primeiro contato e estabelecimento do rapport.

No momento da confissão e interpretação tudo é explicitado e é formada a base do processo de aconselhamento. O aconselhador deve possibilitar, ou estimular, que dois terços do tempo seja preenchido com falas e expressões do aconselhando para que possa fluir do subconsciente para o consciente então o indivíduo possa liberar este canal no processo catártico. Por fim, o aconselhador sugere interpretações e identifica, no aconselhando, as reações às sugestões apresentadas.

Assim, o aconselhador ouve objetivamente e ajuda o aconselhando a confessar e enxergar o problema, e então auxilia o aconselhando na compreensão das fontes da personalidade, de onde surgiu o problema, por fim salienta as relações que proporcionarão ao aconselhando uma nova compreensão de si mesmo e então capacitar na solução do seu próprio problema.

A transformação da personalidade é o objetivo final do processo de aconselhamento e o aconselhador propõe uma série de alternativas construtivas para que o aconselhando possa, no seu inconsciente, fazer suas escolhas.

O sofrimento do aconselhando é canalizado pelo aconselhador como força para transformação do caráter.

Ao propor sugestões porque a pessoa aceita umas e outras não? A resposta está na estrutura da personalidade do indivíduo que, quando saudável, o ego consciente faz uma seleção e escolhe a direção que ele aprova e refreia as outras tendências. No indivíduo com uma neurose ocorre o enfraquecimento do ego e o indivíduo se torna incapaz de decidir sobre o que deve ser feito para então concluir a ação efetiva. Algumas sugestões serão descartadas, outras aceitas e, na mente, funcionarão como fermento que se une a uma tendência inconsciente para levar a uma decisão.

O aconselhador apresenta uma série de alternativas construtivas para que o aconselhando possa, no seu inconsciente, fazer suas escolhas.

“O sofrimento é uma das forças mais potencialmente criativas da natureza.”  A dor como primeiro passo para um segundo nascimento, necessário para uma clarificação e que nenhum tormento foi em vão. O sofrimento como energia transformadora de seu caráter.

“O aconselhador não deve aliviar o aconselhando do sofrimento, mas direcionar este sofrimento para canais construtivos. É a misteriosa criatividade da vida.

Outro instrumento relevante no processo de aconselhamento é a religião, que deve ser, para o indivíduo, instrumento de segurança verdadeira e não sustentar o egoísmo ou o medo ou enfatizar a inferioridade. Ao se buscar a segurança a pessoa deve se esforçar para não encontrar atalhos que levem aos bosques da ilusão.

A religião deve ser instrumento para enfrentar as fraquezas e fortalecer cada pessoa, caso contrário levará a dependência ou imaturidade.

A vida em abundância possibilita o fortalecimento do indivíduo para enfrentar fraquezas e dificuldades que surgem ao longo da vida e a religião pode ser este instrumento de força e afirmação fundamental do sentido da vida. Esta afirmação – de si, do outro e do universo – ocorre de maneira ativa, viva, uma fé viva.

Assim, a religião ajuda na transformação da ansiedade neurótica em força e criatividade e  capacita o indivíduo a confiar, ter coragem e segurança.

Alcançar a saúde da personalidade pressupõe a crença na finalidade da sua vida. Sem finalidade não há significado. Sem significado, não se vive. A religião é, então, a crença no processo da vida.

Ao se clarificar, através da religião, o indivíduo compreende sua condição humana imperfeita. Por fim a religião possibilita caminhar sobre a corda bamba da insegurança, afirmar a verdade e o bem, clarificar e dar graça ao indivíduo para que este se sinta tomado por um senso único de liberdade, um encontro com si mesmo, com os outros e ver o lugar de todos no universo.

Referências:

MAY, Rollo. A Arte do Aconselhamento Psicológico. Petrópolis: Vozes, 1982.

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